....sem essa, são só idéias jogadas que formam uma linha de raciocínio.
Quarta-feira, Março 26, 2008
“Penso que, talvez, Mike e Michael ficaram um pouco atordoados em como o último disco foi mal recebido. Eu não fiquei. Eu já sabia que o disco não era tão bom antes mesmo de terminá-lo”, diz Peter Buck em entrevista para Craig McLean, do Telegraph. O tal “último disco” a que o guitarrista do R.E.M. se refere é “Around The Sun” (2004), um álbum que ousou macular uma carreira até então brilhante (mesmo com o fato de seus predecessores, “Up” e “Reveal”, serem apenas bons em uma carreira repleta de álbuns sensacionais). Peter Buck assume o erro, e isso é um fato que não se vê todos os dias no mainstream. Porém, estamos diante do R.E.M., uma banda rara no mundo pop.
Tudo que você precisava saber previamente sobre “Accelerate”, décimo-quarto álbum do R.E.M., já está pipocando de blog em blog faz alguns dias: que este é o melhor álbum do R.E.M. na década 00; que é o álbum mais barulhento do trio desde “Monster” (1994); que suas onze músicas juntas não ultrapassam os 35 minutos de duração (quase metade do tempo dos álbuns anteriores); que “Accelerate” (”Acelerar”) é um nome apropriado para um disco rápido e urgente; que Jacknife Lee, o produtor, tinha trabalhado com Bloc Party e Green Day, e foi recomendado ao R.E.M. por The Edge (U2); e outros blá blá blás. É bem provável que qualquer texto que você leia sobre “Accelerate” lhe dará a impressão de estar diante de um grande álbum, e mais: de que – parafraseando a manchete da reportagem do Telegraph – o R.E.M. renasceu. Tudo verdade.
“Living Well Is The Best Revenge”, a porrada que abre “Accelerate”, é um bom resumo de tudo que virá pela frente. O baixo de Mike Mills (a grande estrela do disco) pula a frente da bateria agitada de Bill Rieflin e das guitarras punks de Peter Buck e Scott McCaughey. “Man-Sized Wreath”, a segunda faixa, desacelera em relação à abertura, mas mantém o álbum em alta velocidade. A temática permanece a mesma, mantendo a mídia como alvo. Além de uma pulsante linha de baixo, Mike Mills se destaca na harmonia vocal. O ritmo desacelara mais um tiquinho em “Supernatural Superserious”, contagiante primeiro single do álbum que fala sobre adolescência e humilhação, mais uma canção para entrar no rol das grandes músicas do R.E.M., que Michael Stipe apelidou carinhosamente de “hino geek”.
A introdução da sensacional “Hollow Man” é piano e voz. Quando você acredita estar diante de uma baladaça daquelas “estilo R.E.M.”, o grupo acelera em direção ao refrão com Michael Stipe gritando assustado com medo de ser um homem oco. Violão e órgão compõem o clima denso de “Houston”, com Michael Stipe postando-se entre os terríveis furacão Katrina e o presidente Bush: “Se a tempestade não me matar, o governo irá”. A faixa título volta a trazer urgência ao álbum com Stipe cravando frases como: “A incerteza é sufocante. Nossa esperança nunca foi tão grande”. Para o vocalista e letrista, não é hora de perder tempo: “Não tenho tempo para questionar as escolhas que eu faço / Eu tenho que seguir outro caminho: acelerar”.
O folk irlandês “Until The Day Is Done” fala sobre um país em ruínas, sobre guerras perdidas. Sob uma base de guitarra encharcada de eco e colocada no fundo da melodia na mixagem, “Mr. Richards” permite um paralelo com “Mr. Jones”, personagem da letra de “Ballad of a Thin Man”, clássico de Bob Dylan, com Michael Stipe aqui questionando um político que ignora o povo. A climática e arrastada “Sing For The Submarine” cita “Electron Blue” e “It’s A End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)” enquanto “Horse To Water” surge como um dos momentos mais rápidos do disco, uma punk song brilhante.
Para fechar, cinismo, caos e muito barulho: “I’m Gonna DJ” surge mais pesada do que a versão do álbum “Live” e termina o disco da mesma forma que começou: com rapidez e sujeira. Novamente na linha de frente do rock mundial, o R.E.M. “vende” ao público certo tipo de transcendência, algo que faz deles exemplos de honestidade, atitude e opinião. Pois o R.E.M. faz parte de um tempo (perdido) em que amar uma banda ia além de comprar discos e decorar as músicas. Implícito, entre os devaneios, está a necessidade de acreditar que é possível mudar o mundo com uma canção.
“Accelerate” é um álbum que une as duas principais facetas musicais do R.E.M.: o lado rock, amargurado e barulhento, e o lado acústico, denso e provocativo. No entanto, por mais que os violões dominem um terço das canções, este é o primeiro álbum inspiradamente punk do trio (”Monster” era muito mais glam). É o primeiro álbum, também, que coloca Mike Mills em pé de igualdade com Peter Buck e Michal Stipe. É um disco excelente, que se não alcança o status de clássicos como “Document”, “Out of Time” e “Automatic For The People”, serve para recolocar a banda novamente no rumo após o fiasco de “Around The Sun”. É um álbum que se não vai mudar o mundo, serve para ser deixado no repeat enquanto se questiona a descrença na mídia, nos políticos e em si mesmo. A resposta a ser encontrada provavelmente será a mesma proposta por Michael Stipe: acelere, não há tempo a perder. Não há mesmo.
“Accelerate”, R.E.M. (Warner)
Preço em media: R$ 30
Nota 9
Lançamento Oficial: 01 de Abril
Além da versão normal, “Accelerate” conta com uma versão de luxo com CD e DVD (e um encarte de 64 páginas), que inclui um filme de 48 minutos sobre as gravações e ainda traz dois b-sides, “Red Head Walking” e “Airliner”. Essa versão, importada, deve sair por R$ 60.
postado por: <$HENRYQUE DYAS$> 7:49 AM
Quarta-feira, Março 19, 2008
Crueldade
Empresária goiana é acusada de torturar mais duas jovens e foi condenada por maus-tratosPublicada em 18/03/2008 às 23h35m
Jornal Hoje; Isonilda Souza - Especial para o Globo
GOIÂNIA e RIO - A empresária Silvia Calabrese, de 42 anos, presa na segunda-feira em Goiânia sob a acusação de torturar uma menina de 12 anos, já foi condenada por maus-tratos a uma menina de apenas 5 anos. Na época, Silvia foi acusada pela mãe de torturar a criança, mas o promotor não obteve as provas da tortura. Pela condenação por maus-tratos, Silvia apenas pagou cestas básicas. Outra suposta vítima de Silvia, uma manicure de 20 anos, disse nesta terça à polícia ter sido torturada por ela quando tinha 15 anos.
Nesta terça, a mãe da menina maltratada aos 5 anos foi à delegacia após reconhecer a empresária pela TV. Sua filha, hoje com 11 anos, ainda tem cicatrizes de queimaduras nas mãos e teve parte dos cabelos arrancada.
Além de torturar a filha de criação, de 12 anos, a empresária submetia a menina a um regime forçado de trabalho, no qual só permitia que ela dormisse quatro horas por dia. A agenda diária de tarefas está descrita num caderno apreendido pela polícia junto com outros objetos usados para torturar a vítima. As páginas mostram que a menina cumpria tarefas domésticas até 1h40m e recomeçava o trabalho às 5h40m. As anotações foram feitas pela empregada doméstica Vanice Maria Novais, de 26 anos, que supervisionava as tarefas.
A polícia também apura a participação do marido da empresária, engenheiro Marco Antônio Calabrese, nos crimes. O advogado dele, Darlan Alves Ferreira, esteve na delegacia e disse que seu cliente se apresentará espontaneamente à polícia ainda nesta quarta-feira. Segundo Darlan, Calabrese admitiu que sabia de "alguns fatos", mas que não denunciou porque não teve coragem de "ir contra a mulher". O engenheiro é dono de uma construtora em Goiânia.
A empresária e a doméstica foram presas em flagrante, acusadas de tortura e cárcere privado. A menina foi achada graças a uma denúncia anônima amarrada e amordaçada na cobertura de Silvia, num bairro nobre de Goiânia. Em depoimento, a vítima contou que morava lá há dois anos e que era forçada a fazer os serviços da casa: lavava, passava e fazia faxina. Quando não conseguia executar o trabalho, contou, era torturada com arames, alicate, afogamentos e ferro quente. A vítima disse que, pouco antes de ser libertada, foi amarrada porque não secou o banheiro.
Nesta terça, as duas acusadas foram transferidas da delegacia para um casa de custódia. Como Silvia não tem curso superior, ficará numa cela comum, mas sozinha, para não ser linchada. Se condenadas, as duas podem pegar até 24 anos de prisão. Durante a transferência, a empresária tentou jogar a culpa na empregada.
- Ela falava assim: tem que fazer isso com a menina, porque senão ela vai virar bandida. Ela ficava me induzindo - disse Silvia.
"
Ela falava assim: tem que fazer isso com a menina, porque senão ela vai virar bandida
"
--------------------------------------------------------------------------------
A empregada, por sua vez, negou as acusações:
- Ela quer me culpar, mas eu nunca bati na menina. Não a denunciei porque ela me chantageava.
Segundo a delegada do caso, Adriana Accorsi, a menina disse que chegou a ficar até três dias sem comer e que chegou a ser forçada a ingerir fezes e urina de cachorro. Disse também que a empresária costumava passar pimenta em seus olhos e boca. A tortura teria começado há cerca de seis meses.
O caso chocou a cidade. Nesta terça, a menina, que está em um abrigo, recebeu roupas e brinquedos, entre eles uma bicicleta que ela revelou ser o "presente de seus sonhos". Um empresário prometeu bancar os estudos dela até a faculdade. A menina não freqüenta a escola desde o ano passado porque foi reprovada por faltas. Ela também recebeu nesta terça a visita dos pais biológicos, Lourenço Rodrigues Ferreira, que mora em Goiânia, e Joana D'Arc da Silva, que vive em Pires do Rio, interior do estado.
O casal prestou depoimento e ambos alegaram desconhecer as torturas. O pai garantiu que não autorizou a "doação" da filha. Ele disse que várias vezes tentou visitá-la, mas foi impedido pela empresária.
- A empregada sempre dizia que ela não estava em casa - declarou.
O juiz da Infância e Juventude de Goiânia, Maurício Porfírio Rosa, afirmou que aguarda as investigações para decidir se devolverá a menina aos pais.
- Ela já disse que quer morar com o pai. A princípio, achamos que ele tem esse direito - afirmou .
A delegada ainda avalia se a mãe da menina será indiciada por omissão. A polícia apurou que a dona de casa recebeu dinheiro para deixar a filha com a empresária.
No flagrante de segunda-feira, a polícia filmou a adolescente presa a uma escada de ferro no terraço do apartamento e amordaçada com esparadrapos.
- Só a psiquiatria pode explicar o que é tamanha crueldade - disse a delegada.
A menina disse que quer voltar a viver com os pais:
- Pedia ajuda a Deus. Agora, quero ser feliz com o meu pai e estudar. E ter minha bicicleta.
A mãe biológica da criança pediu Justiça:
- Eu quero justiça. Silvia jurou que ia cuidar da minha filha e que iria ajudá-la - afirmou a mãe.
postado por: <$HENRYQUE DYAS$> 8:06 AM
CODINOMES
Estes são poemas de alguém
Que sem perceber perdeu todas as chances de ter ninguém
...
Que teve que esquecer ou fingir
Esquecer as promessas de nunca magoar ninguém
...
A promessa de amar ninguém
...
E por mais difícil que seja
Este alguém fingiu que tá bem
Tão bem... que ninguém não percebe
As lágrimas de sangue que escorrem pelo seu rosto
...
E apesar destas lágrimas já terem marcado caminho
{Manchando seu lindo rosto}
...
Este alguém sedutor que tenta arrancar seu coração
Tenta tirar sua vida em vão!
...
Acaba se revelando então
...
E logo ninguém percebe que em todo esse tempo
também amava alguém!!!
{by_myself}
postado por: <$HENRYQUE DYAS$> 8:05 AM
Segunda-feira, Março 10, 2008
Bob Dylan
Última música. George Receli, o baterista, dá duas marteladas no bumbo e a banda entra jogando no colo da audiência “Like a Rolling Stone”, a canção que tirou Bob Dylan de vez da ala folk e o transformou em ícone pop em 1965. O homem não está olhando a platéia. O teclado (em que Bob passa 80% do show) fica posicionado na lateral do palco, para que ele comande com olhares as baquetadas de Receli e coordene – junto ao baixista Tony Garnier – os improvisos da banda. No lado direito da platéia, uma garota de estatura mediana consegue – numa falha da segurança – escalar o palco e parte correndo em direção ao homem.
Bob Dylan está imerso na canção, buscando na memória a letra que vai saindo pelos lábios em fiapos desgastados de voz. A menina corre, pára em frente a ele e abre os braços. Assim que vê a garota, Dylan toma um susto e faz um gesto automático de “pare” com a mão esquerda estirada e o braço retraído, enquanto a mão direita continua intercalando teclas pretas e brancas. A menina fica petrificada até ser agarrada por um segurança brutamontes que, ao invés de portar uma cara de poucos amigos, ri de toda a cena enquanto a retira do palco. O público vai ao delírio e deixa as cadeiras – de R$ 250 até R$ 900 – para ficar em pé.
Um princípio de desordem se instala no recinto com berros, gritos e urros saldando a invasora, o homem e aquela canção. Bob Dylan se perde na melodia, olha para Receli que faz um improviso, e retorna ao andamento do refrão. O público vai junto e canta “How does it feel / How does it feel / To be without a home / Like a complete unknown / Like a rolling stone?” a plenos pulmões sem o acompanhamento de Bob, que volta a cantar o refrão na seqüência e encaminha a música – e o show – para o final com um olhar em direção a Receli e Garnier. A música acaba. Ele se curva em direção a platéia, vira de costas e caminha para o backstage. Parece pensar, atônito, num lapso de deja vu: “Isso foi tão anos 60″.
Até este momento o show alternava clássicos interpretados de forma incompreensível (”Masters Of War”, “I’ll Be Your Baby Tonight”, “It Ain’t Me, Babe”) com versões bem distinguíveis de “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Highway 61 Revisited” (metalizada, um dos grandes números da noite), sem contar canções mais recentes (o repertório trouxe nove músicas pós anos 2000 e oito dos anos 60), como a versão poderosa de “High Water (For Charlie Patton)” (com o grisalho Denny Freeman atacando com fúria sua Fender Stratocaster) e as bem recebidas (seis) canções do álbum “Modern Times” (com destaque para “Spirit On The Water”, com Dylan introduzindo a canção com uma gaita; e “Thunder On The Mountain”). Decepção mesmo só “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”, um mero rascunho da original.
A Turnê Que Nunca Termina chegou a São Paulo precedida de muita expectativa. O alto preço dos ingressos, a fama de difícil do compositor e sua (falta de) voz castigada por anos e anos de excessos dividiam o público. Na hora do show, no entanto, 90% da casa estava tomada. Bob não falou uma palavra sequer com a platéia (a não ser quando apresentou incompreensivelmente sua banda - um quinteto - ao final do show), mas está muito longe de ser a pessoa difícil que tantos pintam.
De calça preta com uma listra branca, terno prateado (que parece ser duas vezes maior do que ele) e chapéu de cowboy com uma pena colorida, no Via Funchal, em São Paulo, Bob Dylan, 67 anos, fez com que duas garotas invadissem o palco (a primeira tentou subir pelo lado esquerdo da platéia, no início da apresentação), e com que o ícone teen do momento, Mallu Magalhães, 15 anos, fosse conversar com os seguranças antes do show pedindo-lhes permissão para entregar ao músico algo que ela carregava em uma caixa. Isso diz muito sobre a música deste homem, sua influência e seu carisma.
Fãs de primeira e última hora (que só conhecem “Blowin’ in The Wind” e não ouviram os recentes “Love and Theft” e “Modern Times”) e artistas globais (como Bruna Lombardi, que perguntada sobre qual música de Dylan ela mais gostava, respondeu: “Aquela que o Caetano canta”) se assustaram com a voz deteriorada do compositor. Nos anos 60, quando começou sua carreira, Dylan já não tinha a melhor voz da música pop. Esse nunca foi o seu cartão de visitas. Natural que em 2008, sabem-se lá quantas vidas depois, sua voz esteja esganiçada, pequena e ardida. Pela idade e pelo descuido. Dylan envelheceu, e sua voz também.
O show é um retrato borrado da era de ouro do rock and roll, algo fora de moda, distante dos tempos modernos. Porém, ao contrário de muitos outros mártires daquele verão do amor, Dylan foi ao inferno, sobreviveu a si mesmo, e voltou para contar/cantar. Sua voz enrugada é perfeitamente aceitável. O show é um passeio sombrio entre passado, presente e futuro. Por mais que aquele momento da garota petrificada frente ao ídolo tenha sido muito anos 60, não há nada mais 2008 que recusar o amargo, o ardido, o esganiçado, aquilo que não soa limpo (até o punk e o metal soam melodiosos hoje em dia).
Quase cinqüenta anos se passaram, e Dylan continua na contramão da música pop, caminhando sozinho em uma estrada longa e solitária. Na platéia, menos afortunados tentam capturar um fragmento de um tempo que se foi, sem perceber que Dylan está muito mais preocupado com o que virá. Neste desencontro entre platéia e artista encontra-se o crème de la crème da arte moderna. Poucos shows no mundo podem simbolizar tanto sem serem explicitamente históricos. E foi isso que aconteceu. Dylan fez uma apresentação histórica em São Paulo, mas pouca gente percebeu.
postado por: <$HENRYQUE DYAS$> 12:58 PM